O pedido de Flávio para cassar a chapa de Lula tem base?
O senador anunciou que vai pedir à Justiça Eleitoral a cassação da chapa vencedora por abuso de poder; as acusações não vêm acompanhadas de prova pública e não há decisão judicial.
Informações confirmadas em 4 fontes independentes. O que checamos · Ver fontes · Como checamos

O senador Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que vai pedir à Justiça Eleitoral a cassação da chapa que elegeu Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB), sob a acusação de abuso de poder político e econômico na campanha. A checagem confirma o anúncio e o conteúdo das acusações: as três fontes consultadas registram o pedido. Não encontramos, porém, provas apresentadas publicamente pelo senador nem decisão judicial que dê sustentação às alegações contra o presidente eleito — que, até aqui, é acusado, não condenado.
O senador também afirmou que foi intimado pela Polícia Federal a entregar os passaportes e está proibido de deixar o país. Esse ponto é confirmado por duas fontes independentes.
O que se confirma
O anúncio do pedido de cassação aparece na BBC News Brasil, na CNN Brasil e na InfoMoney. Nas três, Flávio diz que usará o jurídico do partido para questionar a disputa. O argumento é que o governo teria injetado "quase meio trilhão de reais" de dinheiro público em ano eleitoral, valor que ele associa a compra de votos. A cifra e a acusação são dele: não são um dado oficial.
Leia tambémTrump falou em fraude na eleição brasileira: apresentou alguma prova?Confirmada também está a mudança de rota. No domingo, o senador falava em anulação da eleição; depois, passou a pedir a cassação da chapa — alteração registrada pela BBC e pela InfoMoney.
"A disputa não deveria ser um vale-tudo por parte de quem quer se manter no poder. O que ele fez foi um abuso do poder político e econômico sem precedentes, com total desequilíbrio na disputa eleitoral" — Flávio Bolsonaro, senador (PL)
"Então, eu vou pedir, sim, a cassação da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu. A lei tem que valer para todo mundo, e a competição tem que ser justa e igual" — Flávio Bolsonaro, senador (PL)
Dois episódios paralelos têm confirmação em mais de um veículo. A própria campanha do senador pediu, durante a votação, prorrogação do horário em cidades do Sul e de São Paulo por causa do mau tempo (BBC e InfoMoney). Já a intimação para entregar os passaportes, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, é relatada pelo g1 e pela InfoMoney, que também confirmam a versão de que a medida se apoiou em fala do deputado Eduardo Bolsonaro sobre deixar o país em caso de derrota.
"Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender essa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar, mas ninguém vai me calar" — Flávio Bolsonaro, senador (PL)
O que não está confirmado
Parte das acusações tem registro em um único veículo. A CNN Brasil publicou que o senador fala em "difusão em massa de mentiras" e em um "complexo industrial de fake news"; nenhuma outra fonte consultada reproduz a expressão. A BBC foi a única a apontar que a prorrogação do horário de votação, determinada pelo ministro Cristiano Zanin a pedido da campanha de Lula, entraria entre as razões do pedido.
Os números usados para sustentar a tese também são de uma só fonte. A BBC informou ter identificado 33.866 votos registrados após as 17h, o equivalente a 0,026% dos 128.236.074 votos do segundo turno. A InfoMoney trabalha com 64,2 milhões de votos para Lula (51,79%) contra 59,8 milhões (48,21%); a BBC falava em 51,74% e 48,26% durante a apuração. A diferença entre os dois candidatos fica em torno de 4,4 milhões de votos nas duas versões, mas os percentuais não são idênticos.
Ainda sem confirmação independente: a nota em que o PL reconheceria o resultado proclamado pelo TSE (só a BBC a menciona); o levantamento do Gastômetro do Estadão sobre R$ 405 bilhões em medidas em ano eleitoral (só a InfoMoney); e a fala em que Flávio se apresenta como organizador da oposição (também só a InfoMoney).
Dois advogados ouvidos pela BBC avaliam que a extensão do horário não alterou o resultado. Um deles, Alberto Rollo, afirma que "os votos contados após as 17h são insuficientes para alterar o resultado da eleição. Não existe nulidade sem prejuízo". Fernando Neisser diz que "claramente, o Flávio percebeu que, diante dos números, a tese de que a extensão do horário teria causado alteração no resultado eleitoral não se firma". As duas declarações aparecem em um único veículo.
O material de apuração também menciona que o pedido poderia vir por Ação de Investigação Judicial Eleitoral, que processos do tipo levariam de um a dois anos, que o TSE absolveu a chapa Dilma-Temer em 2017 por falta de provas e que existiriam outras ações no tribunal. Não localizamos, nas fontes consultadas, registro que confirme esses pontos.
Contexto
O TSE proclamou o resultado da eleição, e o presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, afastou dúvidas sobre a votação: "Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Houve prorrogação na forma em que foi decidida. O TSE cumpriu a decisão nos estritos termos em que ela foi proferida e logo após demos fluência à totalização e à disponibilização. Então, temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral".
Na Justiça Eleitoral, cassar uma chapa exige prova de abuso com gravidade suficiente para desequilibrar a disputa e nexo com o resultado — o que, segundo os especialistas ouvidos pela BBC, é justamente o ponto frágil do anúncio. Jair Bolsonaro, pai do senador, está em prisão domiciliar e inelegível.
O que ainda não se sabe
Não há informação pública sobre provas concretas que o senador tenha reunido. Também não está claro se ele desistiu formalmente do pedido de anulação, quem assinaria a ação (ele, o partido ou a coligação) nem qual rito o TSE adotaria. Não localizamos reação pública do PT ou da campanha de Lula à ameaça. O pedido, se apresentado, não altera por si a posse nem impede o exercício do mandato.
O que checamos
Cada afirmação desta matéria foi conferida em fontes independentes antes da publicação.
- Confirmado
Flávio Bolsonaro afirmou que vai pedir a cassação da chapa de Lula e Alckmin por abuso de poder político e econômico.
Fontes: BBC News Brasil, CNN Brasil, InfoMoney · Confirmado por BBC, CNN e InfoMoney. - Confirmado
O senador alega que Lula injetou 'quase meio trilhão de reais' de dinheiro público para fazer a 'maior compra de votos da história'.
Fontes: BBC News Brasil, CNN Brasil, InfoMoney · Alegação reportada por múltiplas fontes, embora sem provas apresentadas. - Só uma fonte
Flávio também acusa a campanha de Lula de 'difusão em massa de mentiras' e de um 'complexo industrial de fake news'.
Fontes: CNN Brasil · A expressão 'complexo industrial de fake news' aparece apenas na CNN; a BBC menciona 'difusão em massa de mentiras', mas não o termo 'complexo industrial'. - Só uma fonte
Ele menciona a prorrogação do horário de votação determinada pelo ministro do STF Cristiano Zanin, a pedido da campanha de Lula, como uma das razões para o pedido.
Fontes: BBC News Brasil · Apenas a BBC associa explicitamente a prorrogação como razão para o pedido de cassação; outras fontes mencionam a prorrogação em contexto de anulação. - Confirmado
A mudança de estratégia ocorre após Flávio ter dito no domingo que pediria a anulação da eleição; agora fala em cassação da chapa.
Fontes: BBC News Brasil, InfoMoney · BBC e InfoMoney registram a mudança de discurso de anulação para cassação.
Fontes consultadas 4
- 1BBC News BrasilFlávio muda a rota e agora fala em cassar a chapa Lula-Alckminbbc.com
- 2CNN BrasilFlávio diz que vai pedir cassação da chapa de Lula por abuso de podercnnbrasil.com.br
- 3g1Flávio diz que vai pedir cassação da chapa de Lulag1.globo.com
- 4InfoMoneyFlávio Bolsonaro diz que vai pedir cassação de chapa de Lulainfomoney.com.br
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