Corte de R$ 200 bilhões no plano de Flávio: de onde sai esse número?
Os dois candidatos mantêm a isenção do IR até R$ 5 mil, e o IVA dual é bandeira de Lula. Já o corte de R$ 200 bilhões e o 'tesouraço' seguem sem detalhamento.
Parte das informações foi confirmada; o restante segue em apuração e está sinalizado no texto. O que checamos · Ver fontes · Como checamos

No debate de sexta-feira (23), Flávio Bolsonaro cobrou uma proposta de saneamento básico para o Norte e Lula respondeu falando em floresta em pé. As duas falas passaram a circular como se resumissem os programas econômicos dos candidatos, e o Poder360, a CNN Brasil e o Exame publicaram análises nessa linha. A checagem confirma o IVA dual apenas no programa de Lula e a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil nos dois planos. Não encontra confirmação para o custo e a fonte de financiamento das propostas de saneamento e economia verde, nem para o detalhamento dos cortes de gastos prometidos por Flávio.
O que se confirma
O Poder360 e o Exame confirmam, de forma independente, que Lula defende dar continuidade à reforma tributária sobre o consumo, com dois tributos — CBS e IBS —, cesta básica sem imposto e devolução de parte do tributo à população de baixa renda, o cashback.
Os dois veículos também confirmam que Lula quer preservar a isenção de Imposto de Renda até R$ 5.000 mensais e continuar tributando as faixas mais altas, incluindo offshores e fundos exclusivos. Poder360 e Exame coincidem ainda no desenho da faixa: desconto parcial para quem recebe entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350.
Leia tambémDá para confiar nos resultados parciais do voto no exterior?Do lado de Flávio, as duas fontes registram a crítica ao formato da reforma e a avaliação de que a alíquota estimada do IVA, perto de 30%, é elevada. A comparação usada pelos dois veículos é a média de 19% nos países da OCDE.
Há convergência também sobre a promessa de Flávio de reduzir tributos de alimentos, combustíveis e energia elétrica, desonerar investimentos e exportações e simplificar regras — sem indicação, nos textos publicados, de onde sairia a compensação pela perda de arrecadação. Outro ponto confirmado pelas duas fontes: a retenção de 10% na fonte sobre dividendos acima de R$ 50 mil mensais pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa.
O que não está confirmado
O Poder360 publicou que Flávio propõe limitar despesas discricionárias dos Três Poderes, extinguir ao menos 10 ministérios, reduzir cargos comissionados, combater penduricalhos e supersalários e retomar privatizações. Nenhuma outra fonte consultada confirma o conjunto. O termo "tesouraço" aparece no material associado ao plano de Flávio, não a Lula — a pauta que orientou esta apuração atribuía a expressão ao petista, mas não encontramos registro nesse sentido.
O mesmo veículo informa que a equipe de Flávio fala em corte de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões, sem dizer o que sairia do Orçamento, e que o plano prevê ampliar gastos, como dobrar investimentos em segurança pública e abrir 500 mil vagas no sistema prisional em quatro anos. São dados de uma só fonte.
O Poder360 publicou que a dívida bruta atingiu 82,9% do PIB em agosto, maior nível desde março de 2021, atribuindo o dado ao Banco Central. Não localizamos a série em outra fonte consultada; o número segue pendente de confirmação independente.
O Exame informou que a alíquota de referência do IVA será fixada pelo Senado, que o Comitê Gestor do IBS trabalha com 27,91% para CBS e IBS somados e que o teto legal é de 26,5%. Nenhuma outra fonte consultada sustenta esses números, assim como a transição até 2033, o envio da proposta ao Senado até 30 de outubro e a renúncia estimada de R$ 25,84 bilhões em 2026 com a isenção do IR.
O mesmo veículo noticiou que a isenção até R$ 5.000 já virou lei (Lei 15.270, sancionada em 26 de novembro de 2025, em vigor desde 1º de janeiro de 2026), com tributação mínima para rendas acima de R$ 600 mil anuais e alíquota crescente até 10% a partir de R$ 1,2 milhão. Não encontramos confirmação em outra das fontes consultadas.
Sobre o debate, a CNN Brasil registrou que Flávio afirmou ter apresentado ao Congresso uma proposta de saneamento para a região Norte, à qual o PT teria votado contra, e que Lula reagiu dizendo que o oponente "não conhece o Amazonas" e que rende mais "a floresta em pé do que caída". A reportagem estava em atualização e não detalha as duas propostas — por isso não há como verificar custo ou financiamento.
Contexto
O segundo turno está marcado para 25 de outubro de 2026, e os programas dos dois candidatos estão registrados no Tribunal Superior Eleitoral. A reforma tributária sobre o consumo está em fase de transição, com substituição gradual de PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS.
Economistas ouvidos pelo Poder360 divergem sobre a viabilidade dos planos. Bruno Perri, da Forum Investimentos, diz que "Falar em corte de tributos neste momento é uma fantasia". Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, fala em "Orçamento frouxo" e em "um grande vazio". Augusto Parente, da AW Capital, vê espaço: "Acredito que criar uma nova regra, dependendo de como funcione, pode entregar esse ajuste que o mercado espera. Se realmente ele entregar tudo que está prometendo".
O que ainda não se sabe
Não há custo estimado nem fonte de financiamento declarada para o saneamento no Norte e para a agenda de economia verde apresentada no debate.
O plano de Flávio não informa quanto os cortes economizariam nem o que seria retirado do Orçamento para chegar à meta de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões, segundo o Poder360. O Exame registra que a proposta não traz alíquota alternativa para o IVA, não detalha a compensação pela perda de arrecadação e não apresenta medida detalhada para o Imposto de Renda.
Falta ainda a definição da alíquota de referência do IVA, que depende do Senado após o segundo turno.
Fontes consultadas 3
- 1Poder360Saiba o que Lula e Flávio Bolsonaro propõe para a economiapoder360.com.br
- 2CNN BrasilFlávio fala em saneamento básico no Norte; Lula, em economia verdecnnbrasil.com.br
- 3ExameLula x Flávio Bolsonaro: o que cada um propõe para Imposto de renda e IVA?exame.com
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